segunda-feira, 17 de março de 2014

17/03/2014

Faz muito tempo que eu moro longe e, desde que comecei a sair sozinha, sempre ia e voltava sozinha. Não tinha carona ou alguém que morasse perto, sempre fui só eu. Durante o período em que eu passava sozinha, me habituei a prestar atenção nas pessoas. Afinal, sozinha, realmente, eu não estava. Eu via pessoas familiares numa multidão de desconhecidos, e logo depois elas eram desconhecidas de novo.
Daí que, dessa vez, me ocorreu algo diferente. Não fui a observadora, fui observada. Desci do ônibus e comecei a caminhar. Passei por uns policiais, alguns gatos dormindo e comecei a olhar as pedras avermelhadas do chão. Não sei por quanto tempo andei até perceber, mas tinha uma senhora atrás de mim. Ela andava sorrindo e me alcançou quando atravessei a rua. Ela passou para a minha frente e disse:
- Ele tava te paquerando
E eu respondi:
- Quem?
Ela continuou caminhando rápido e parecia um pouco perdida.
- O policial. Ele andou atrás de você e ficou te olhando muito, ficou todo sem graça quando me viu, porque eu percebi.
Eu tinha visto o policial, mas não tinha percebido nada daquilo.
- Foi? Não percebi...
- Foi sim, ele olhou muito pra você
- Ah...
Eu queria muito chegar em casa e tentei parecer realmente apressada, mas aí ela falou de novo:
- Onde a gente pega a topique pra Pernambuco?
- Oi?
- Onde a gente pega a topique pra Pernambuco?
- Pernambuco?
- É...
Não tinha ninguém perto. Comecei a ficar assustada.
- Desculpa, eu não sei...
"Essa mulher quer ir pra Pernambuco daqui? Ela sabe onde a gente tá?" Pensei.
Já ia responder que não sabia do que ela tava falando, quando ela falou:
- É que eu sei que aqui a gente pega uma topique, que tem uma topique que anda aqui.
Estávamos dentro do Campus do Pici. Lá, existe ônibus e topiques que levam os alunos da entrada ao centro do campus. Achei que era disso que ela tava falando. Então disse:
- Olha, ali do outro lado tem uma parada, lá passam as topiques.
- Mas é que eu sei que a gente pega uma topique e para no meio do caminho pra pegar outra, que vai pra Pernambuco.
- Olha, eu realmente não sei disso... Sei que ali passam as topiques, mas como não estudo aqui, não sei informar.
- Ta bem.
Ela foi embora. Era uma senhora de mais de 50 anos, eu acho. Usava um vestido vermelho um pouco velho, uma bolsa e não tinha todos os dentes. Aí foi a hora da minha cabeça começar a funcionar. Na região Norte, existe uma lenda que conta sobre uma jovem que, no dia do seu aniversário, pega um táxi no cemitério e pede para que o taxista a leve pra casa. Quando chegam à casa dela, descobrem que ela está morta, e que quem entrou no táxi era um fantasma.
Eu não era nenhuma taxista, mas uma mulher me parou num lugar onde não tinha ninguém perto e perguntou onde ela deveria pegar uma topique para ir para um estado que fica a uns 775 km daqui. Só por precaução, fui embora sem olhar pra trás.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Quatro.

Num dia de ensaio para a solidão, você me abordou, - sim, fui abordada- me entregou uma flor de papel e ensaiou uma conversa
- Oi
- Oi (MEU DEUS ELE ME DEU UMA FLOR)
- De onde você tá vindo?
- Da faculdade, e você?
- Eu também. Que curso você faz?
- Cinema... (QUEM É ELE PRA QUERER SABER O QUE EU FAÇO E DE ONDE VENHO? SOCORRO)
- Ah, sério? Tenho uma amiga que faz cinema...
- Ah, sério? Legal :)
Pausa. Minha cabeça tava a mil. Eu já nem sabia mais que música tava ouvindo e minhas mãos suavam. Pensava "Puxa, ele é bonito... Quando eu contar isso, ninguém vai acreditar."
- Qual o seu nome?
- Marília, e o teu?
- Carlos. 
Lembro de um estranho ter nos interrompido pedindo informações e eu dei uma resposta errada, até hoje espero que aquele homem tenha conseguido chegar onde queria.
Você disse alguma coisa como olha-eu-preciso-ir-agora-que-já-é-a-minha-parada e eu pensei que tinha acabado ali. Guardei a flor e voltei a ouvir minha música. O trocador tinha o cabelo branquinho e veio conversar comigo. Perguntou se eu estava no ônibus certo e eu disse que sim. Ele sorriu. Foi um dia bonito, e aí eu não consegui não te procurar por aí, até que encontrei e desde então não paramos mais de nos falar, você percebeu? Mesmo vendo meu pescoço amarrado e machucado você não deixou que eu desligasse o telefone. Nem a cabeça.
Sempre fui de pensar demais e durante toda aquela semana, não pensei, só deixei que você me levasse. Tinha muito barulho e você disse que não conseguia parar de pensar em mim. As suas palavras tinham cheiro de álcool. Eu bebi cada uma delas. 
No dia seguinte, misturamos açúcar a adrenalina e tivemos um composto: suor. Nossas mãos e pés dançavam em nossos sapatos e a agonia do segundo seguinte nos matava como o tempo que morria junto com a nossa espera. Foi então que nos vimos sós. E cada pedaço pensante e não pensante de mim quis que você chegasse mais perto e que nos tornássemos o que ainda não tínhamos sido, e que somos hoje. 

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Sutjeska

O sinal tá verde, mas todos os carros estão parados. 
Não sei o que acontece, não sei o que aconteceu. 
Acordei e estava tudo assim. 
Eu não consigo mais ver além. 
Tudo está construído e nada parece inteiro. 
Eu não sou forte o suficiente pra segurar a nós dois, nunca segurei a mim mesma. 
Preciso nos salvar, preciso te segurar, mas me sinto por um triz. 
Quanto mais as coisas deixam de ser abstratas mais eu quero morrer.
Quero suficiência, quero alienação. 
Eu não nasci pra ser assim.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Eu escolheria o fim do mundo,
mudaria todas as cores,
mancharia todos os meus dedos,
andaria descalça pelo chão quente,
ficaria sozinha num mar de decibéis,
esqueceria a psicóloga,
comeria sushi,
usaria shorts mais compridos,
se um dia você acreditasse.

domingo, 17 de novembro de 2013

Adiós

    Tô te esperando aqui, mas não é por nada, não. Tenho certeza de que você já veio várias vezes e não encontrou nada. Nenhum resquício do que eu costumava fazer, ninguém conhecido. Sei que esse café era o "nosso lugar", mas, aqui, você só vai ver marcas de alguém que eu não sou mais.
    Sentávamos sempre na mesma mesa e pedíamos sempre a mesma coisa. Eu nunca entendi a sua obsessão por vodca. Acredito que nem goste de verdade, como muita coisa que eu nunca acreditei que você fosse. Hoje, não estou sentada naquela mesa. Escolhi um lugar diferente, bem iluminado e com vista para a avenida. Pedi um chá, diferente do refrigerante de antes e hoje vejo que mudaram os garçons daqui. Vamos ver se você ainda vai reclamar do tempo de atendimento.
    Acontece que, quando eu te chamei hoje, você ficou extremamente surpreso. Disse que não me encontrava mais em lugar nenhum, e que havia algo diferente na minha voz. É verdade, Sophia, é a mais pura verdade. Eu não ando mais por lugar nenhum. Agora escolho sempre meu caminho, sabe, escolho a dedo.
    Precisei de acompanhamento psicológico pra entender que a culpa não foi minha. Sabe, de todo aquele tempo, toda aquela culpa que eu acumulei... Você sabe de tudo. Era você, lá. Éramos nós dois. Você sabe do que estou falando. A psicóloga não tirou os olhos de mim.

- Por que você se culpa tanto?
- Hoje eu tenho uma nova pessoa e... não existe problema algum. Acho que ajo igual e não existem problemas. Tá tudo bem e já fazem quase 3 meses.
- Por que você se culpa?
- Eu não sei.
- Você não tem culpa.

    Sendo assim, me abstraio de tudo. Você estava lá, me viu nutrir uma paixão por outra pessoa. Você sabia. Mesmo que eu não soubesse que você sabia, você estava lá e me assistiu do início ao fim. Me assistiu até me ver no chão, sozinha, pra falar que já sabia de tudo e que era tudo culpa minha. Por que levei todo esse fardo por tanto tempo? Bom, esse peso não carrego mais. Se quiser lembrar disto, está tudo em suas mãos, Sophia.
    O que? Qual o problema do meu chá? Amargue-se com sua vodca, do meu chá cuido eu. Não, Sophia, eu não sofro mais, não por você. Eu lhe disse que, por ti, não derramaria lágrima alguma. Nunca mais. Eu chorava em seus braços, me escondia e chorava, soluçava, desejava morrer. Tive um flash de consciência e prometi, jurei que de mim você não tirava mais nada.
    Não quero nada meu que ficou em sua casa. Pode jogar tudo fora, vender, doar. Não me importo. Acho que nada daquilo foi realmente meu. Já as suas coisas, que estão na minha, deixo aqui, em cima dessa mesa. Depois de acordar do seu porre você vai ver tudo e eu desejo que se lembre de mim. Mas não lembre demais. Não te chamei aqui pra reviver algum passado. Mentira. Reviva tudo. Reviva e segure toda a culpa que você sempre atribuiu a mim. Abrace-a. Sinta seu cheiro. Ela é sua. É meu presente para você.
    Estou vivendo tão solta que acabei esquecendo a hora. Não, não. Eu não vou ficar. Não, Sophia, não quero te ouvir. Não quero saber dos seus planos, suas intenções. Não quero nada daquilo que não foi meu. Eu até te pediria desculpas pelo tempo em que te enganei e te feri, mas... Quem vai vir pedir perdão por tudo o que eu chorei? Ninguém vai, porque você nunca vai sair desse seu pedestal. Nunca vai lembrar de sair da sua redoma e enxergar o mundo. Uma coisa eu digo a você: se, naquele último dia, você tivesse escolhido estar junto a mim ao invés de sair com os seus amigos e observar seus outros amores, e ficasse ao meu lado... Bem. Eu não vou imaginar. Foi um caminho que a vida não escolheu pra mim e eu me sinto aliviada. Muito.
    Pode deixar que eu pago a minha conta. Adeus, Sophia, eu encontrei alguém melhor que você.

domingo, 13 de outubro de 2013

sa-do/ma-so

    Ah, meu bem, este é um fato consumado: se você soltar minha mão, eu caio na avenida, ralo os joelhos, fico no chão e de lá não me levanto. Vou derreter que nem gelatina de morango. Parece vermelha e consistente, mas basta alguns minutos desprotegida do calor pra virar um líquido sem graça e doce demais.
    Quando falei que te odiava era porque te odiava de verdade. E ainda odeio. Não sei mais ficar sozinha, não sei planejar um futuro só, não sei me imaginar por aí sozinha. Perdi minha independência, minha vontade de ser do mundo e a culpa é toda sua. Vista-a e carregue-a por cima dos seus sinais.
    E, como todo fato consumado, ele carrega uma dor. E ela tá sempre doendo uma dor forte e bem audível (é daquelas que gritam, pra você não esquecer). Quando começo a pensar que ela tá aliviando, vou lá e arranco a casquinha, pra ver se volta a doer. E volta.
    Qualquer dia, vou abrir essas tuas cicatrizes e procurar a minha dor, que deve ter escorrido de ti e se embrenhado na minha carne. Se só eu me sentir assim, vou abrir uma ferida maior, que vai cobrir todas as outras, pra não te fazer esquecer mais. Sim, eu quero te ver sofrer. Quero ver o teu sofrimento igual ao meu, pra te fazer sentir assim, perdido, como eu sinto todos os dias.
    E vou me costurar na tua pele, vou fazer sangrar, faço teus fios virarem cachos, tua pele ficar branca como a minha, teu sorriso o meu... Mas isso eu já te falei.
    Na verdade, quem é que vai se importar com tudo isso? Já viemos todos (eu e você) tão mastigados que uma dor a menos será mais notada que uma dor a mais.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Elocubrações

     Não era um outro dia qualquer. Era uma terça-feira. Uma tediosa e normalmente absurda terça-feira. Não um domingo, uma terça. Nada me interessou mais do que sair andando e sentindo o sol bater em minha pele, então fui.Você não sabe onde moro. Aqui, o sol não agrada a ninguém. Ele queima, racha, machuca, destrói.
     Andei e fui diminuindo o passo até perceber que já estava à beira do abismo. Eu disse "abismo"? Quis dizer "asilo". Nem sempre soube do que se tratava aquele lugar. A princípio, não era nada mais do que um lugar com paredes amarelas e um muro baixo, onde eu sempre via pessoas solitárias. Num dia qualquer, já em casa, pesquisei sobre aquela rua e descobri que era um asilo. Saber disso me chocou. Quando percebi, passei a fazer mais silêncio ao passar por lá, como se meus passos fossem suficientes para perturbar a apatia do lugar.
     Pelas minhas andanças, percebi um velhinho sempre em pé, na mesma esquina. Cabelos brancos, um pouco careca, barba sempre por fazer, calção de seda, chinelos e um boné. Não lembro de um dia em que ele não estava lá. Hoje, ele não estava. Pela primeira vez, em algum tempo, não passei por ele. Se passei, estava distraída, mas duvido que esse seja o caso. Ele não aproveitou o mesmo sol que eu. Apesar de saber que sua pele não precisava sofrer mais do que já havia sofrido. Me pergunto se eu deveria voltar lá e esperá-lo. Perguntar a alguém se ele está bem. Pensando assim, acho que nunca esteve. Acontece que eu não vou voltar lá. Não hoje, e talvez amanhã isso perca completamente a importância, porque amanhã não será terça-feira.
     Alguns passos depois, à porta do asilo, vi uma velhinha sentada. Ela olhava para mim, olhava como quem observava, e eu apenas passei por ela. Ela estava sentada de frente para a avenida, à sombra de uma árvore, daquelas que deixam cair algum tipo de fruto que parece uma concha fechada. Ah, o nome é Amendoeira. (Tenho certeza que você já viu algumas por aí.) Logo após passar pela velhinha, tive vontade de voltar lá. Ela parecia tão triste quanto eu. Um pouco menos amedrontada, mas triste.Talvez, tudo o que ela precisasse era conversar. Talvez, tudo o que eu precisasse era ouvi-la, mas não voltei, apenas segui.
     Quando atravessei a rua, acabei pisando em uma poça. Água. No chão. Você não sabe onde eu moro. Isso deveria ser crime. Acontece que existem dezenas de pessoas aqui e ninguém parece se importar.
     Lembrei que prometi que não sairia de lá, era importante. Só que, depois de pensar tudo isso, não vou mais voltar.