quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Sutjeska

O sinal tá verde, mas todos os carros estão parados. 
Não sei o que acontece, não sei o que aconteceu. 
Acordei e estava tudo assim. 
Eu não consigo mais ver além. 
Tudo está construído e nada parece inteiro. 
Eu não sou forte o suficiente pra segurar a nós dois, nunca segurei a mim mesma. 
Preciso nos salvar, preciso te segurar, mas me sinto por um triz. 
Quanto mais as coisas deixam de ser abstratas mais eu quero morrer.
Quero suficiência, quero alienação. 
Eu não nasci pra ser assim.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Eu escolheria o fim do mundo,
mudaria todas as cores,
mancharia todos os meus dedos,
andaria descalça pelo chão quente,
ficaria sozinha num mar de decibéis,
esqueceria a psicóloga,
comeria sushi,
usaria shorts mais compridos,
se um dia você acreditasse.

domingo, 17 de novembro de 2013

Adiós

    Tô te esperando aqui, mas não é por nada, não. Tenho certeza de que você já veio várias vezes e não encontrou nada. Nenhum resquício do que eu costumava fazer, ninguém conhecido. Sei que esse café era o "nosso lugar", mas, aqui, você só vai ver marcas de alguém que eu não sou mais.
    Sentávamos sempre na mesma mesa e pedíamos sempre a mesma coisa. Eu nunca entendi a sua obsessão por vodca. Acredito que nem goste de verdade, como muita coisa que eu nunca acreditei que você fosse. Hoje, não estou sentada naquela mesa. Escolhi um lugar diferente, bem iluminado e com vista para a avenida. Pedi um chá, diferente do refrigerante de antes e hoje vejo que mudaram os garçons daqui. Vamos ver se você ainda vai reclamar do tempo de atendimento.
    Acontece que, quando eu te chamei hoje, você ficou extremamente surpreso. Disse que não me encontrava mais em lugar nenhum, e que havia algo diferente na minha voz. É verdade, Sophia, é a mais pura verdade. Eu não ando mais por lugar nenhum. Agora escolho sempre meu caminho, sabe, escolho a dedo.
    Precisei de acompanhamento psicológico pra entender que a culpa não foi minha. Sabe, de todo aquele tempo, toda aquela culpa que eu acumulei... Você sabe de tudo. Era você, lá. Éramos nós dois. Você sabe do que estou falando. A psicóloga não tirou os olhos de mim.

- Por que você se culpa tanto?
- Hoje eu tenho uma nova pessoa e... não existe problema algum. Acho que ajo igual e não existem problemas. Tá tudo bem e já fazem quase 3 meses.
- Por que você se culpa?
- Eu não sei.
- Você não tem culpa.

    Sendo assim, me abstraio de tudo. Você estava lá, me viu nutrir uma paixão por outra pessoa. Você sabia. Mesmo que eu não soubesse que você sabia, você estava lá e me assistiu do início ao fim. Me assistiu até me ver no chão, sozinha, pra falar que já sabia de tudo e que era tudo culpa minha. Por que levei todo esse fardo por tanto tempo? Bom, esse peso não carrego mais. Se quiser lembrar disto, está tudo em suas mãos, Sophia.
    O que? Qual o problema do meu chá? Amargue-se com sua vodca, do meu chá cuido eu. Não, Sophia, eu não sofro mais, não por você. Eu lhe disse que, por ti, não derramaria lágrima alguma. Nunca mais. Eu chorava em seus braços, me escondia e chorava, soluçava, desejava morrer. Tive um flash de consciência e prometi, jurei que de mim você não tirava mais nada.
    Não quero nada meu que ficou em sua casa. Pode jogar tudo fora, vender, doar. Não me importo. Acho que nada daquilo foi realmente meu. Já as suas coisas, que estão na minha, deixo aqui, em cima dessa mesa. Depois de acordar do seu porre você vai ver tudo e eu desejo que se lembre de mim. Mas não lembre demais. Não te chamei aqui pra reviver algum passado. Mentira. Reviva tudo. Reviva e segure toda a culpa que você sempre atribuiu a mim. Abrace-a. Sinta seu cheiro. Ela é sua. É meu presente para você.
    Estou vivendo tão solta que acabei esquecendo a hora. Não, não. Eu não vou ficar. Não, Sophia, não quero te ouvir. Não quero saber dos seus planos, suas intenções. Não quero nada daquilo que não foi meu. Eu até te pediria desculpas pelo tempo em que te enganei e te feri, mas... Quem vai vir pedir perdão por tudo o que eu chorei? Ninguém vai, porque você nunca vai sair desse seu pedestal. Nunca vai lembrar de sair da sua redoma e enxergar o mundo. Uma coisa eu digo a você: se, naquele último dia, você tivesse escolhido estar junto a mim ao invés de sair com os seus amigos e observar seus outros amores, e ficasse ao meu lado... Bem. Eu não vou imaginar. Foi um caminho que a vida não escolheu pra mim e eu me sinto aliviada. Muito.
    Pode deixar que eu pago a minha conta. Adeus, Sophia, eu encontrei alguém melhor que você.

domingo, 13 de outubro de 2013

sa-do/ma-so

    Ah, meu bem, este é um fato consumado: se você soltar minha mão, eu caio na avenida, ralo os joelhos, fico no chão e de lá não me levanto. Vou derreter que nem gelatina de morango. Parece vermelha e consistente, mas basta alguns minutos desprotegida do calor pra virar um líquido sem graça e doce demais.
    Quando falei que te odiava era porque te odiava de verdade. E ainda odeio. Não sei mais ficar sozinha, não sei planejar um futuro só, não sei me imaginar por aí sozinha. Perdi minha independência, minha vontade de ser do mundo e a culpa é toda sua. Vista-a e carregue-a por cima dos seus sinais.
    E, como todo fato consumado, ele carrega uma dor. E ela tá sempre doendo uma dor forte e bem audível (é daquelas que gritam, pra você não esquecer). Quando começo a pensar que ela tá aliviando, vou lá e arranco a casquinha, pra ver se volta a doer. E volta.
    Qualquer dia, vou abrir essas tuas cicatrizes e procurar a minha dor, que deve ter escorrido de ti e se embrenhado na minha carne. Se só eu me sentir assim, vou abrir uma ferida maior, que vai cobrir todas as outras, pra não te fazer esquecer mais. Sim, eu quero te ver sofrer. Quero ver o teu sofrimento igual ao meu, pra te fazer sentir assim, perdido, como eu sinto todos os dias.
    E vou me costurar na tua pele, vou fazer sangrar, faço teus fios virarem cachos, tua pele ficar branca como a minha, teu sorriso o meu... Mas isso eu já te falei.
    Na verdade, quem é que vai se importar com tudo isso? Já viemos todos (eu e você) tão mastigados que uma dor a menos será mais notada que uma dor a mais.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Elocubrações

     Não era um outro dia qualquer. Era uma terça-feira. Uma tediosa e normalmente absurda terça-feira. Não um domingo, uma terça. Nada me interessou mais do que sair andando e sentindo o sol bater em minha pele, então fui.Você não sabe onde moro. Aqui, o sol não agrada a ninguém. Ele queima, racha, machuca, destrói.
     Andei e fui diminuindo o passo até perceber que já estava à beira do abismo. Eu disse "abismo"? Quis dizer "asilo". Nem sempre soube do que se tratava aquele lugar. A princípio, não era nada mais do que um lugar com paredes amarelas e um muro baixo, onde eu sempre via pessoas solitárias. Num dia qualquer, já em casa, pesquisei sobre aquela rua e descobri que era um asilo. Saber disso me chocou. Quando percebi, passei a fazer mais silêncio ao passar por lá, como se meus passos fossem suficientes para perturbar a apatia do lugar.
     Pelas minhas andanças, percebi um velhinho sempre em pé, na mesma esquina. Cabelos brancos, um pouco careca, barba sempre por fazer, calção de seda, chinelos e um boné. Não lembro de um dia em que ele não estava lá. Hoje, ele não estava. Pela primeira vez, em algum tempo, não passei por ele. Se passei, estava distraída, mas duvido que esse seja o caso. Ele não aproveitou o mesmo sol que eu. Apesar de saber que sua pele não precisava sofrer mais do que já havia sofrido. Me pergunto se eu deveria voltar lá e esperá-lo. Perguntar a alguém se ele está bem. Pensando assim, acho que nunca esteve. Acontece que eu não vou voltar lá. Não hoje, e talvez amanhã isso perca completamente a importância, porque amanhã não será terça-feira.
     Alguns passos depois, à porta do asilo, vi uma velhinha sentada. Ela olhava para mim, olhava como quem observava, e eu apenas passei por ela. Ela estava sentada de frente para a avenida, à sombra de uma árvore, daquelas que deixam cair algum tipo de fruto que parece uma concha fechada. Ah, o nome é Amendoeira. (Tenho certeza que você já viu algumas por aí.) Logo após passar pela velhinha, tive vontade de voltar lá. Ela parecia tão triste quanto eu. Um pouco menos amedrontada, mas triste.Talvez, tudo o que ela precisasse era conversar. Talvez, tudo o que eu precisasse era ouvi-la, mas não voltei, apenas segui.
     Quando atravessei a rua, acabei pisando em uma poça. Água. No chão. Você não sabe onde eu moro. Isso deveria ser crime. Acontece que existem dezenas de pessoas aqui e ninguém parece se importar.
     Lembrei que prometi que não sairia de lá, era importante. Só que, depois de pensar tudo isso, não vou mais voltar.

sábado, 21 de setembro de 2013

Só mortos sairemos daqui.

Vem cá, deixa eu te ninar.
Não foge, que quando era eu, você me segurou pelo braço, me girou e pediu que eu apenas abrisse os olhos. Que eu apenas visse tudo o que estava ao meu redor.
Não chora.
Podemos juntar nossos medos, misturar tudo e fazer um doce, como os seus. O que nos adoçaria mais do que nós mesmos?
Agora, eu digo: abra seus olhos, meu bem, encare os fatos. Conforme-se com o peso de mim que você carregará para sempre. Acomode-se e conforte-se. Essa é a nossa sina, você em mim e eu em você. Urgentemente, desesperadamente. Apenas assim.
Pega na minha mão, vamos ver o abismo. Não agora, preciso te deixar dormir. Você corre tanto, que um dia qualquer vai me alcançar antes mesmo que eu consiga chegar. Por isso está sempre precisando de afago, de colo, de descanso. E eu, sempre falando demais, acabo por não entender que tudo o que você espera de mim é o silêncio que eu tanto procurei. Vai, pode dormir. Acaricio seu cabelo e você dorme. Essa é a ordem.
Enquanto você acorda, vejo seus olhos e agradeço por não precisar me perder em lugar nenhum, além deles. E acordas assim, cantando o nosso estranho encontro, nossas estranhas circunstâncias e descobrindo nossos inúmeros desencontros.
Eu quero, eu sinto, eu posso. Nós vamos viajar dentro desse arco que nos suga cada vez mais, vamos nos perder e nos encontrar ainda dentro dessa confusão. Eu te quis mesmo antes de te conhecer. Somos apenas abstratos. Nossas mãos dadas se entrelaçara de um jeito que eu sinto a tua unha na minha unha, a tua pele na minha, a tua força na minha força, nós vamos nos grudar e você vai gritar até que nenhum de nós possa mais ouvir.
"O teu desejo é sempre o meu desejo. Vem, me exorciza."

domingo, 18 de agosto de 2013

the imaginary thing

     Quando viu-se sentada em sua poltrona, certificou-se de reparar cada detalhe. Seu número era o 16. Levava apenas uma mala, mas não pôde carregá-la consigo. Ao se lado, uma janela. Pequena, de acabamento redondo e com cortinas brancas. Resolveu que só as abriria após levantarem voo, pra evitar  vertigem.
     Já no céu, pôs-se a pensar sobre suas escolha. As nuvens, paradas, se movimentavam e ela lembrava de cada tentativa falha. Amores impossíveis, incalculáveis, incompreendidos, insuficientes. Percebeu que tudo o que ela escolheu para cercá-la estava ali para tentar livrá-la de seu maior tormento: a solidão do dia-a-dia.
     Chegou ao aeroporto e logo, dentro de um táxi, começou a ensaiar um conjunto de mil palavras que nunca seriam ditas. Cabeça baixa, endereço em mãos. Era admirada pelo motorista - não tinha consciência da beleza de seus olhos grandes, e não tinha ideia de para onde estava indo. Apenas ia.
     À medida que a cidade se tornava mais maciça e cinza, imaginava-se parada à porta do 340 - seu destino, ali. Ao abrir a porta, encontrava uma silhueta recortada, tons de vermelho pelo apartamento, movimentos banais e tudo menos a solidão que ela esperava. Acordava do devaneio ao ouvir qualquer buzina e sentia-se aliviada por ainda estar no banco do carro. Talvez, pensava, tudo aquilo não passasse de mais uma tentativa que iria juntar-se à lista das mal sucedidas, mas ela não podia impedir seus braços e pernas e olhos e pele e coração de chegar até ali.
     Parada, olhando para o número 340, feito de madeira, procurou entender os ruídos e as cores. O silêncio era audível (e como ela amava ouvir o silêncio) e tudo parecia azul. Juntou os pés ao tapete e tocou, de leve, a campainha.
     De dentro do apartamento, ouviu sair um barulho de chaves. A porta foi aberta e revelou um conjunto de cachos, pele, dentes, altura, tecido e aconchego. Por alguns segundos, olhares estranhos foram trocados e ela percebeu, no olhar que recebia, uma sonolência invejável. Sorriu.
              "Que eu seria apenas uma parte da tua vida que ficaria para trás."
Pediu que ela entrasse. Pediu que ficasse. Pediu que o amasse.