domingo, 13 de outubro de 2013

sa-do/ma-so

    Ah, meu bem, este é um fato consumado: se você soltar minha mão, eu caio na avenida, ralo os joelhos, fico no chão e de lá não me levanto. Vou derreter que nem gelatina de morango. Parece vermelha e consistente, mas basta alguns minutos desprotegida do calor pra virar um líquido sem graça e doce demais.
    Quando falei que te odiava era porque te odiava de verdade. E ainda odeio. Não sei mais ficar sozinha, não sei planejar um futuro só, não sei me imaginar por aí sozinha. Perdi minha independência, minha vontade de ser do mundo e a culpa é toda sua. Vista-a e carregue-a por cima dos seus sinais.
    E, como todo fato consumado, ele carrega uma dor. E ela tá sempre doendo uma dor forte e bem audível (é daquelas que gritam, pra você não esquecer). Quando começo a pensar que ela tá aliviando, vou lá e arranco a casquinha, pra ver se volta a doer. E volta.
    Qualquer dia, vou abrir essas tuas cicatrizes e procurar a minha dor, que deve ter escorrido de ti e se embrenhado na minha carne. Se só eu me sentir assim, vou abrir uma ferida maior, que vai cobrir todas as outras, pra não te fazer esquecer mais. Sim, eu quero te ver sofrer. Quero ver o teu sofrimento igual ao meu, pra te fazer sentir assim, perdido, como eu sinto todos os dias.
    E vou me costurar na tua pele, vou fazer sangrar, faço teus fios virarem cachos, tua pele ficar branca como a minha, teu sorriso o meu... Mas isso eu já te falei.
    Na verdade, quem é que vai se importar com tudo isso? Já viemos todos (eu e você) tão mastigados que uma dor a menos será mais notada que uma dor a mais.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Elocubrações

     Não era um outro dia qualquer. Era uma terça-feira. Uma tediosa e normalmente absurda terça-feira. Não um domingo, uma terça. Nada me interessou mais do que sair andando e sentindo o sol bater em minha pele, então fui.Você não sabe onde moro. Aqui, o sol não agrada a ninguém. Ele queima, racha, machuca, destrói.
     Andei e fui diminuindo o passo até perceber que já estava à beira do abismo. Eu disse "abismo"? Quis dizer "asilo". Nem sempre soube do que se tratava aquele lugar. A princípio, não era nada mais do que um lugar com paredes amarelas e um muro baixo, onde eu sempre via pessoas solitárias. Num dia qualquer, já em casa, pesquisei sobre aquela rua e descobri que era um asilo. Saber disso me chocou. Quando percebi, passei a fazer mais silêncio ao passar por lá, como se meus passos fossem suficientes para perturbar a apatia do lugar.
     Pelas minhas andanças, percebi um velhinho sempre em pé, na mesma esquina. Cabelos brancos, um pouco careca, barba sempre por fazer, calção de seda, chinelos e um boné. Não lembro de um dia em que ele não estava lá. Hoje, ele não estava. Pela primeira vez, em algum tempo, não passei por ele. Se passei, estava distraída, mas duvido que esse seja o caso. Ele não aproveitou o mesmo sol que eu. Apesar de saber que sua pele não precisava sofrer mais do que já havia sofrido. Me pergunto se eu deveria voltar lá e esperá-lo. Perguntar a alguém se ele está bem. Pensando assim, acho que nunca esteve. Acontece que eu não vou voltar lá. Não hoje, e talvez amanhã isso perca completamente a importância, porque amanhã não será terça-feira.
     Alguns passos depois, à porta do asilo, vi uma velhinha sentada. Ela olhava para mim, olhava como quem observava, e eu apenas passei por ela. Ela estava sentada de frente para a avenida, à sombra de uma árvore, daquelas que deixam cair algum tipo de fruto que parece uma concha fechada. Ah, o nome é Amendoeira. (Tenho certeza que você já viu algumas por aí.) Logo após passar pela velhinha, tive vontade de voltar lá. Ela parecia tão triste quanto eu. Um pouco menos amedrontada, mas triste.Talvez, tudo o que ela precisasse era conversar. Talvez, tudo o que eu precisasse era ouvi-la, mas não voltei, apenas segui.
     Quando atravessei a rua, acabei pisando em uma poça. Água. No chão. Você não sabe onde eu moro. Isso deveria ser crime. Acontece que existem dezenas de pessoas aqui e ninguém parece se importar.
     Lembrei que prometi que não sairia de lá, era importante. Só que, depois de pensar tudo isso, não vou mais voltar.

sábado, 21 de setembro de 2013

Só mortos sairemos daqui.

Vem cá, deixa eu te ninar.
Não foge, que quando era eu, você me segurou pelo braço, me girou e pediu que eu apenas abrisse os olhos. Que eu apenas visse tudo o que estava ao meu redor.
Não chora.
Podemos juntar nossos medos, misturar tudo e fazer um doce, como os seus. O que nos adoçaria mais do que nós mesmos?
Agora, eu digo: abra seus olhos, meu bem, encare os fatos. Conforme-se com o peso de mim que você carregará para sempre. Acomode-se e conforte-se. Essa é a nossa sina, você em mim e eu em você. Urgentemente, desesperadamente. Apenas assim.
Pega na minha mão, vamos ver o abismo. Não agora, preciso te deixar dormir. Você corre tanto, que um dia qualquer vai me alcançar antes mesmo que eu consiga chegar. Por isso está sempre precisando de afago, de colo, de descanso. E eu, sempre falando demais, acabo por não entender que tudo o que você espera de mim é o silêncio que eu tanto procurei. Vai, pode dormir. Acaricio seu cabelo e você dorme. Essa é a ordem.
Enquanto você acorda, vejo seus olhos e agradeço por não precisar me perder em lugar nenhum, além deles. E acordas assim, cantando o nosso estranho encontro, nossas estranhas circunstâncias e descobrindo nossos inúmeros desencontros.
Eu quero, eu sinto, eu posso. Nós vamos viajar dentro desse arco que nos suga cada vez mais, vamos nos perder e nos encontrar ainda dentro dessa confusão. Eu te quis mesmo antes de te conhecer. Somos apenas abstratos. Nossas mãos dadas se entrelaçara de um jeito que eu sinto a tua unha na minha unha, a tua pele na minha, a tua força na minha força, nós vamos nos grudar e você vai gritar até que nenhum de nós possa mais ouvir.
"O teu desejo é sempre o meu desejo. Vem, me exorciza."

domingo, 18 de agosto de 2013

the imaginary thing

     Quando viu-se sentada em sua poltrona, certificou-se de reparar cada detalhe. Seu número era o 16. Levava apenas uma mala, mas não pôde carregá-la consigo. Ao se lado, uma janela. Pequena, de acabamento redondo e com cortinas brancas. Resolveu que só as abriria após levantarem voo, pra evitar  vertigem.
     Já no céu, pôs-se a pensar sobre suas escolha. As nuvens, paradas, se movimentavam e ela lembrava de cada tentativa falha. Amores impossíveis, incalculáveis, incompreendidos, insuficientes. Percebeu que tudo o que ela escolheu para cercá-la estava ali para tentar livrá-la de seu maior tormento: a solidão do dia-a-dia.
     Chegou ao aeroporto e logo, dentro de um táxi, começou a ensaiar um conjunto de mil palavras que nunca seriam ditas. Cabeça baixa, endereço em mãos. Era admirada pelo motorista - não tinha consciência da beleza de seus olhos grandes, e não tinha ideia de para onde estava indo. Apenas ia.
     À medida que a cidade se tornava mais maciça e cinza, imaginava-se parada à porta do 340 - seu destino, ali. Ao abrir a porta, encontrava uma silhueta recortada, tons de vermelho pelo apartamento, movimentos banais e tudo menos a solidão que ela esperava. Acordava do devaneio ao ouvir qualquer buzina e sentia-se aliviada por ainda estar no banco do carro. Talvez, pensava, tudo aquilo não passasse de mais uma tentativa que iria juntar-se à lista das mal sucedidas, mas ela não podia impedir seus braços e pernas e olhos e pele e coração de chegar até ali.
     Parada, olhando para o número 340, feito de madeira, procurou entender os ruídos e as cores. O silêncio era audível (e como ela amava ouvir o silêncio) e tudo parecia azul. Juntou os pés ao tapete e tocou, de leve, a campainha.
     De dentro do apartamento, ouviu sair um barulho de chaves. A porta foi aberta e revelou um conjunto de cachos, pele, dentes, altura, tecido e aconchego. Por alguns segundos, olhares estranhos foram trocados e ela percebeu, no olhar que recebia, uma sonolência invejável. Sorriu.
              "Que eu seria apenas uma parte da tua vida que ficaria para trás."
Pediu que ela entrasse. Pediu que ficasse. Pediu que o amasse.

sábado, 6 de julho de 2013

Só mais um, sobre você.

Nunca esperei que você entendesse, sabe? No fundo, espero, mas tento imaginar o contrário. É que você nunca vai ver como um problema o que me incomoda. Só se o seu problema for o meu incômodo, mas acho que não seja o caso.
Depois que entendi como, aos teus olhos, é tudo tão normal, me sinto errada de contrariar, mesmo sabendo que estou certa. Você também sabe que eu estou, mas não liga. Foi aí que percebi como, pra ti, isso não importa.
Como eu, só vai te parecer errado quando te fizer sofrer. Como eu. Se tua vida fosse um filme, isso ia ser teu processo de degradação. Porque, eu vejo um fim, eu consigo ver. O processo de degradação leva o personagem a um final dramático e eu queria viver, contigo, um daqueles velhos clichês.
É só isso, sabe? Quero te colocar numa redoma, dar água, comida e amor, até que chegue a nossa hora de partir. Nunca falei isso, mas, eu quero ser enterrada no mesmo caixão que tu. Seria o nosso último esconderijo e ninguém poderia nos separar, lá. Só os vermes... Mas aí seria natural e a gente não ia se importar.
E, por querer cuidar tanto, você acha que é por outro motivo.
Não quero tornar tudo um transtorno, mas não sei o que você é capaz de fazer a si próprio. Você pode ser seu próprio transtorno. O que eu quero é acordar todo dia e passar a mão pelo seus cabelos, pelo seu peito, pelo seu rosto. Sentir o teu cheiro de sabonete e dizer "bom dia". Tento tanto dizer o quanto espero da nossa vida, mas tenho sempre receio de que alguma pedra desvie tudo e que acabemos dando de cara com um horizonte em que só você vai ser alto o bastante pra alcançar, porque eu já não posso mais crescer e sempre vou ser pequena.
Eu te quero de volta, pra sempre.







terça-feira, 14 de maio de 2013

Como se fosse normal,
passou o dedo pela marca onde havia uma aliança.
Como se fosse normal,
encontrou a rosa, escura e desidratada, dentro de um livro.
Como se fosse normal,
o escondeu.
Como se fosse normal,
chegou mais tarde para pegar o ônibus.
Como se fosse normal,
voltou sozinha para casa.
Como se fosse normal,
fechou a porta do quarto e chorou.
Como se fosse normal,
músicas tristes a fizeram mal.
Como se fosse normal,
não usou todo o bônus para ligações e sms.
Como se fosse normal,
como se fosse.

terça-feira, 30 de abril de 2013

O tempo passou na janela e só Carolina não viu.

Eu queria dizer que a minha alma não é calma, que tudo tem uma sonoridade, uma agitação, 
mas ela não parecia querer ouvir. 

Fazia sol, mas chovia. As pessoas todas corriam e se abrigavam em qualquer lugar com alguns centímetros de proteção e eu continuava apenas caminhando. Podia ouvir sua voz porque minha memória sempre me traía. Via seu sorriso estampado em qualquer lugar, por mais que não conseguisse lembrar de nenhuma ocasião em que você sorriu.
Era bem difícil porque, por mais que tudo parecesse normal, só de saber que aquele barulho não passaria, eu lembrava de que tudo era uma festa, mas eu jamais seria convidado. Seria sempre o último da fila, do lado de fora do jardim, ouvindo os risos e tentando identificar cada sabor apenas pelo cheiro. 
E, então, lembrei de quando você prendeu o cabelo porque não queria molhar com a chuva. Eu expliquei que não ia chover, que a chuva, no nosso bairro, não vinha do lado da frente da casa, mas você insistiu e saiu sem me pedir para guardar as chaves. Fazia sol e não choveu. Pensei que eu deveria esperar você voltar e, então, fiquei lendo uma coisa qualquer. Deixei a porta aberta. Fiquei remoendo toda uma vida e escrevi poemas mentais para ler pra você enquanto acariciaria seu cabelo. Passaram-se alguns minutos e lembrei que não havia perguntado para onde você ia. 
Então começou a fazer frio e eu não consegui te encontrar em nenhuma esquina. E aí comecei a pensar em tudo o que não vi você viver e quis te explicar como o meu mundo girava, como eu ouvia tanta coisa sobre a vida e nunca quis provar o contrário, como eu imaginei você e te vi materializada na minha frente, como por um sonho, e achei que estivesse tudo resolvido. 
Vi uma foto sua na parede, aquela em que seus olhos estão fechados. Você havia dito que eu já não ouvia nada, que eu era tão desligado e não via as tardes passando enquanto você apenas dormia. E aquilo tudo parecia familiar.
Ensaiei um pedido de desculpas. Ensaiei seu sorriso se abrindo e dizendo que eu estava perdoado. Ensaiei viagens, filhos, flores, canções. Acordei 8 horas depois, estendido no sofá. Porta aberta, relógio no pulso. Tudo inteiro. Fui para o quarto, esperando encontrar os mesmos olhos da fotografia. Encontrei apenas os meus, grandes e castanhos, olhando para mim, de volta, como que em resposta à minha pergunta.
E, quando encontrei-me só, me encontrei e percebi. Percebi. Caminho só por essa chuva, que arde, desde então, procurando algo que silencie tudo aquilo que eu imagino e não posso ouvir.
E você não voltou, sabe? Você nunca voltou.