quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Café, bolinho, torradas.

    Helena saiu na varanda e lembrou de regar todas as suas plantas, fazia questão de manter um jardim impecável. "Minhas flores vão ser sempre a decoração mais bonita da minha casa." Pegou sua capa de chuva, só por precaução, porque parecia que ia chover.
    Chegando ao consultório, notou que sua agenda estava cheia de nomes riscados - desistências. O único nome intacto era de uma mulher chamada Olga. Ela a considerava sua cliente-amiga, pois tinha sido a primeira a contactar seus serviços. Psicóloga recém formada, Helena usou o dinheiro da herança deixada por seus pais para montar seu próprio consultório e achou-se sortuda quando conseguiu rápido sua primeira cliente. Acompanhava Olga desde os deus 37 anos. Agora, com 43, estava divorciada e toda quinzena procurava sua psicóloga para contar, de diferente maneiras, como sentia falta do marido e como odiava ter sido abandonada depois de alguns anos de casamento. Helena consolava a amiga-cliente do modo mais ético possível e logo após deixá-la na saída, virava-se para sua atendente e dizia: "Não morro de fome; sempre vou ter a Olga por aqui, ela não consegue viver sem terapia." A atendente ria e voltava-se para seus afazeres.
    Na volta para casa, parou em uma cafeteria e pediu o de sempre: um café com leite, um bolinho de laranja e algumas torradas. Gostava do cheiro daquele lugar e prometia a si mesma: "Nunca vou deixar de vir aqui." Enquanto comia seu bolinho, ouviu a chuva cair e notou no rosto do garçom uma tristeza incomum, mas voltou sua atenção para seu café e o barulho da chuva. 
    Quando a tempestade acabou, levantou-se, pagou a conta, vestiu sua capa de chuva "só para não pegar respingos" e seguiu o caminho de casa. A chegar, pensava apenas em tomar um banho e não reparou em nada, nem no jardim. No dia seguinte, acordou cedo e enquanto preparava algo para comer, viu pela janela algumas pessoas olharem feio para o seu jardim. Depois de comer, saiu e foi ver o que estava acontecendo lá fora. Viu seu jardim destruído. Muita água, lama, flores pisoteadas, arrancadas, ausência de flores. Helena então percebeu que a chuva havia levado seu jardim embora, que as flores que ela cultivava desde que havia comprado sua casa não estavam mais lá. Foi então que ela viu como era feia e sem graça o lugar aonde morava. Nunca tinha mandado pintar suas paredes, não trocou o portão, não decorou para o natal.
    Já em seu consultório, recebeu um telefonema. Era da família de Olga. Na noite passada foi encontrada morta no chão de uma avenida; jogou-se do nono andar de um prédio qualquer e morreu. Helena chorou em silêncio; nunca mais veria sua única amiga e última cliente. Seu bairro estava cheio de clínicas modernas e especializadas, a clientela em seu consultório só saía, não entrava há muito tempo. 
    Foi ao enterro no mesmo dia e resolveu passar pela mesma cafeteria ao anoitecer, mas a encontrou fechada. Um aviso na porta dizia que "Em breve, aqui, mais um empreendimento do grupo Montenegro". Helena lembrou da tristeza do garçom e pensou que ela deveria ter tido um maior contato com aquelas pessoas com quem lidava todos os dias. Nunca mais haveriam cafés, bolinhos ou torradas como aquelas.
    Chegando em casa, resolveu que iria dormir para tentar esquecer um pouco as coisas, tomou alguns remédios, trocou de roupa e foi deitar. Adormeceu lembrando da voz de Olga, em raros momentos sem chorar, que sempre dizia: "Nada é para sempre, Helena. A eternidade não existe." Sonhou com uma tarde em uma cafeteria, com sua ex cliente, café, bolinhos e torradas e muitas flores vivas e bonitas pelo chão. A assistente demitiu-se, a clínica fechou. Helena não acordou.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Carta para o meu eu de 2013.

Olá, há algum sinal de chuva?

Estranho começar algo assim e falando logo algo que parece ser tão metafórico, mas em 2012 eu esperava um chuva que lavasse tudo e refrescasse o ar. Não dentro de mim, mas fora. Posso fazer chover a qualquer hora, em mim, mas não tenho controle algum do que acontece do lado de fora. É que a chuva é uma coisa boa, do lado de cá. A gente anseia por ela pra abrir aquele guarda chuva bonito, pra levantar de madrugada e fechar a janela, pra usar aquela blusinha de manga. Espero que você tenha acordado com frio algum dia desse novo ano.
Espero que a sua cabeça esteja bem leve, que sua vida corra normalmente e mais tranquilamente. Espero que você tenha conseguido o que queria, que agora esteja bem mais feliz e realizada. Quero que a felicidade vire rotina, ou que, pelo menos, a tristeza perca as chaves do seu quarto.
Quero dizer que você precisa desses amores impossíveis para viver - não esqueça deles. Só não pode deixá-los voar livremente. Tranque-os em um lugar onde você possa saber que eles estão lá mas que não possa vê-los ou senti-los. Deixe o seu coração tranquilo e com você. Ainda não é tempo de entregá-lo, nós duas sabemos disso.
Confie mais em quem confia em você. Confie menos nas pessoas novas. Confie, mas não integralmente, lembre dos erros que cometi. Tente ser mais pacífica, tente perdoar mais, sorrir mais, sonhar mais, sair mais, viver mais. Não se esconda: queira mostrar-se.
Hoje eu vejo todas as minhas escolhas espalhadas sobre uma mesa, posso imaginar que caminho eu teria seguido ao ter escolhido outros caminhos, mas não sei se me sentiria satisfeita ou feliz. Não seja tão impulsiva, não pense só em você. Não pense demais nos outros, não sinta tanto medo, tenha coragem para arriscar.
Se tudo der errado, não tenha medo de chorar e acordar com os olhos inchados. Apenas aceite seu erro e use seus defeitos para começar tudo mais uma vez. "Nunca é tarde, nunca é demais."
Eu lembro de querer sempre ser transparente, estar transparente. Isso pode ter sido um erro algumas vezes, tente não ser sempre tão sincera.
Tente não levar sempre tudo tão a sério. Tente não ser sempre tão sentimental; as pessoas nunca vão pensar como você, nunca vão interpretar a vida do mesmo jeito que você.
Ao fim, quero dizer que 2013 será um ano memorável. Você vai ter toda a felicidade que eu perdi este ano. Aproveite enquanto não precisa passar sua faixa à próxima você, ou, no caso, à próxima nós.
Busque felicidade.
Seja livre.



                                                A.M.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Yayo

Essa dor me contorce, me transforma em lágrimas e depois me faz nadar no oceano de água salgada que eu mesma produzi, me afoga nessa água que é tudo que eu sou e depois me faz lembrar que sempre há mais de onde tudo aquilo veio...
Quero pedir pra você me levar daqui, pra você me fazer esquecer de tudo isso que me dói e me livrar dessa vida pesada, mas aí lembro que eu não te conheço mais e também que eu nunca fui aquela que você imagina que eu sou, que você nunca amou o que eu realmente sou, que você nunca sentiu o meu gosto amargo pra saber que eu ainda carrego muita dor, que eu encontro uma nova dor todo dia e que isso as vezes parece ser demais pra mim, que eu sou nova demais pra carregar tudo isso, que fizeram a entrega nos ombros errados...
Impotente, é assim que me vejo. Me vejo presa a um lugar, à pessoas, a um tipo de vida que eu não quero preservar, mas não tenho escolha. Por isso toda essa história me toca tanto, me suga tanto... Porque me faz pensar em tudo diferente, em um outro lugar, longe de tudo, me dando oportunidades de não sentir mais tanta dor sem sentido.
Posso dizer que já quis, mas hoje já não sei se abriria a porta do seu carro e daria um sorriso como aquele que você guardou de mim. Já não sei se eu não teria medo dos seus olhos me fitando e se teria coragem de deixar você segurar a minha mão.
Eu não sei mais se quero que você me abrace ou se quero te ver partir.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Texto dedicado aos meus professores.

“Ninguém nega o valor da educação e que um bom professor é imprescindível. Mas, ainda que desejem bons professores para seus filhos, poucos pais desejam que seus filhos sejam professores. Isso nos mostra o reconhecimento que o trabalho de educar é duro, difícil e necessário, mas que permitimos que esses profissionais continuem sendo desvalorizados. Apesar de todas as dificuldades, grande parte resiste e continua apaixonada pelo seu trabalho.”

E é aí que entramos, pois o “trabalho” somos nós. Colocamos, mesmo que inconscientemente, nosso futuro nas mãos de vocês e, daqui a algum tempo, vocês serão os professores de gramática, matemática, biologia, física, história, filosofia, literatura, interpretação, inglês, espanhol, química e geografia que fizeram com que fossemos aprovados. E isso vai ficar marcado em nós pra sempre.

Cada piada, risada, bronca, dica e questão nos fez crescer durante esse ano e, mesmo que não pareça verdadeiro em alguns momentos, somos todos muito gratos por tudo o que fizeram por nós e por tudo o que vocês passaram a significar em nossas vidas.

Quando me pediram para escrever isso, eu soube que não deveria colocar no papel nada que não demonstrasse o tamanho do meu, ou, no caso, nosso sentimento de felicidade por ter convivido com vocês. Texto nenhum vai conseguir exprimir o que uma turma sente por seus professores, mas tentamos.

Como diria Henry Adams: "Um professor afeta a eternidade; é impossível dizer até onde vai sua influência."

Muito obrigada.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Queria um chão de cimento, daqueles que ficam gelados ao amanhecer, por causa do orvalho, e também ao anoitecer, pelo frio que a noite traz. Um Ipê roxo para fazer sombra, uma casa pequena, cachorros e gatos, uma rua tranquila, um amor simples de lidar, como aquele algodão doce que derrete fácil na boca.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Dor segundo A.

      Eu lembro da dor, lembro bem. Não porque ainda doa, não dói há algum tempo, mas porque foi tão forte e tão marcante que eu sempre vou ter aquele arrepio na pele ao lembrar de todas aquelas noites que passei escondida, no escuro, esperando que alguém arrancasse todo aquele sofrimento de mim, que me apunhalava   lentamente enquanto eu derramava todas as lágrimas que conseguia produzir.
      Sei que aquela não foi a primeira vez que eu senti uma perda, mas, por algum motivo, é a única vez que consigo lembrar do sofrimento. Talvez porque eu já fosse "velha" o bastante pra entender o que uma perda significa. Talvez porque eu já soubesse o peso que cada palavra carrega consigo e não conseguisse me livrar de nenhuma grama desse peso que eu insistia em sempre levar sobre meus ombros.
      Meu rosto havia mudado, minha voz parecia mais grave e passei a carregar o celular como um órgão vital. A perspectiva de mundo que eu tinha acabou junto com todas as forças que eu usei para chorar e não morrer sem ar. Fiz novos amigos, grandes amigos, os melhores que alguém como eu poderia ter. Tanta coisa mudou... Mas se perguntassem, eu saberia dizer exatamente que parte de mim estava dolorida.
      Aí eu conheci você e foi como uma bolsa de gelo para um joelho roxo. Eu podia respirar mais livre e agora já sorria. Te cuidei tanto, assim como você cuidou tanto de mim e mesmo assim te fiz mais triste do que feliz. E sinto muito por isso.
      Hoje eu sei que toda aquela dor vai voltar, e tá bem perto, posso sentir seu cheiro. Isso porque eu não sei lidar com nada, não sei fazer as coisas do jeito que deveriam ser feitas e não mereço você. Eu não deveria fazer as coisas que faço e não deveria ser do jeito que sou, mas não consigo evitar. Um dia, sei que isso vai chegar a você e eu queria muito que você me perdoasse por ser assim. Sou fruto de muitos erros e sei que você não foi um deles, mas eu fui. Desculpa por não ser quem você achou que eu sempre fosse, desculpa por te esconder a verdade, desculpa por colocar tudo a perder, mas foi mais forte do que eu.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Afonso e o labirinto

      Tonto, tateou à procura dos óculos. Olhou as horas, desligou o despertador. Era o dia da terceira entrevista da semana. Levantou-se, fez um chá, regou o pé de tomate enquanto observava a poeira da cidade. Um lugar velho, com cheiro de fumaça e alguns prédios novos e exuberantes. Tomou o chá, depois um banho. Arrumou o cabelo e fez a barba. Ao abrir o guarda-roupas procurou pela camisa de botões nova e, ao vesti-la, percebeu que ela estava bem mais gasta do que nova.
      Pegou um ônibus vago, pura sorte. Chegou ao escritório alguns minutos antes da hora marcada. Entrou em uma sala grande, com várias cadeiras acolchoadas e muitos rostos; nenhum conhecido. O relógio apontou 8:30 da manhã e uma mulher de meia idade com quadris largos abriu a porta da sala e adentrou-a, dando um sonoro "bom dia", logo em seguida.
      Começou a ouvir histórias de cursos incompletos, uma gravidez precoce, alguns desempregados por falência e um número relativamente grande de inexperientes. Afonso estava começando a pensar em como diria, na frente de todos, que havia largado seus pais em uma pequena cidade para procurar por uma garota sem nome na capital. (O máximo que conseguira encontrar: um apartamento antigo e um pé de tomate na varanda).
      Todos os seus documentos estavam organizados em uma pequena pasta marrom que jazia em seu colo. O frio da sala deixava suas mãos rígidas e ele começou a se perguntar se conseguiria desenrolar os dois barbantes que prendiam as duas abas da pasta.
      A qualificação exigida para aquele cargo era mínima e, talvez, seu diploma da faculdade não fosse útil ali, mas isso não o preocupava; precisava apenas de um motivo para ficar. Em sua cidade, seria apenas mais uma cabeça, apenas mais um par de pernas compridas e apenas mais uma pessoa de cabelos castanhos, comum como a paisagem que cerca a todos naquele lugar.
      A empresa estabeleceu um prazo de sete dias para convocar os aprovados. Afonso estava em seu apartamento, ouvindo uma música que dizia "se tu soubesse como machuca, não amaria mais ninguém", quando o telefone tocou. Ele agora era um homem empregado e deveria comparecer à sede da empresa às 8:00 da manhã da segunda. Era uma sexta e faziam 24 graus. "Se tu soubesse, não contaria pra ninguém."
      Ele lembrava bem da garota. Olhos grandes, uma voz suave, cabelos ondulados. Ela entrou em um ônibus qualquer e ele partiu à sua procura. "Mas você nem sabe o nome dela!". Era verdade. Agora, pelo menos, poderia viver sozinho e tentar ter uma vida agitada na capital. (A garota nunca chegou à cidade, mas ele nunca soube disso).
      Segunda-feira. Afonso. Terno. Começaria a trabalhar como assistente em uma média empresa, localizada no norte da cidade. Distribuiu "bons dias" e recebeu alguns de volta. Tomou um café e levou outro para seu chefe. Começou a trabalhar. Foi para casa às 6. Tomou um banho, jantou uma sopa, regou o pé de tomate, foi dormir. Terça, quarta, quinta, sexta. Bom dia, café, chefe, trabalho. Casa, banho, sopa, regar, dormir. Setembro, outubro, novembro. Bom dia, café, bajulação, trabalho. Apartamento, banheiro, jantar, pé de tomate, cama.
      Livrou-se do marasmo de um lugar quieto, de pessoas e paisagens iguais. Perdeu-se em um labirinto cinza de M.D.F., onde todos bebem a mesma bebida, aspiram a mesma fumaça, vestem a mesma marca barata de terno e distribuem sempre o mesmo "bom dia".